Feliz Dia de Luta, Professor!

Por Deise Rocha
Professora/Pedagoga. Mestranda em Educação pela UnB
deise.rocha@hotmail.com

Desejar um Feliz Dia ou parabenizar e fazer uma homenagem aos(as) professores(as) PROFESSORES-EM-LUTAtalvez não venha acontecer em melhor hora, em melhor ano, em melhor data. É tempo sim de reafirmamos a importância da profissão e motivar nossos docentes pela escolha profissional.

Pesquisas mostram há anos o número grande de professores que desistem da carreira pelas condições de trabalho. Ouvi por várias vezes as motivações:  “não é pelos alunos, eles são maravilhosos, é pelas condições de trabalho, não dá pra aguentar”. E quando permanecem, a maioria, continua por condições materiais de vida: “tem que colocar o arroz e o feijão na mesa, tem oferta de emprego e sou eu que garanto o sustento da casa”. Por aí poderíamos discorrer de várias ideias, de várias discussões das diversas realidades que se apresentam. Mas vamos falar sobre o “Feliz Dia de Luta, Professor!”.

Recentemente conversei com uma professora que foi por um bom tempo docente na rede privada de ensino, e que está há 3 anos na rede pública de educação no Distrito Federal. Ela me contava que sente maior valorização dos alunos e das famílias com quem trabalha na educação pública. “Aqui eles chamam a gente de senhora, e eu só tenho 30 anos”, e chama atenção para o respeito e admiração. Esse sentimento, de minha parte como professora, também é verídico: os pais sempre me procuram interessados na minha opinião como profissional que está cuidando da educação intelectual de seus filhos e suas filhas.

A questão da desvalorização está no governo que claramente serve a uma classe a qual nós não pertencemos, já que constantemente somos desfavorecidos por diversas formas. Essa mesma classe se direciona a professores da rede pública e privada como serviçais de uma mercadoria educação que eles insistem que compram. Nós, insistimos que é direito. Assim, a desistência da profissão, o desânimo, o sofrimento que professores e professoras sofrem no seu cotidiano são condições objetivas de manter controle: lida-se com tantas adversidades nas escolas, tantas problemáticas dos estudantes, e todos os problemas vão surgir dentro da sala de aula e recair sobre as costas dos professores que ficam acuados diante de tantas demandas que vão além das suas capacidades e saberes docentes.

Paralelamente, os governos, além de não se preocuparem com uma gama diversificada de profissionais capacitados para lidar com essas adversidades de nossas crianças e juventude junto aos professores, ainda sobrecarrega docentes com avaliações e punições com base em um sistema meritocrático, submisso ao Banco Mundial – que manda não só em nossos bolsos, mas em nossa formação intelectual e nossa função social e econômica.

Se colocar contra um governo que se posiciona favorável em tirar daqueles menos favorecidos social, econômica e politicamente é a melhor homenagem que um cidadão e uma cidadã pode fazer nos nossos dias atuais aos professores. Lutar contra Rollembergs (DF), Richas (PR), Maconis Perrilos (GO), Jatenes (PA), Pezãos (RJ), Alckmins (SP), Câmaras (PE) que tem atacado a educação diariamente, é uma luta tão necessária como para erradicar o analfabetismo e a marginalidade da juventude brasileira. Essa é uma luta por uma classe oprimida pelo coronelismo arcaico que ainda manda e desmanda nesse país, e que se favorece claramente das condições que nos submetem.

A luta ainda se extende contrária a Rede Globo, Record, SBT (e um sistema de mídia centralizador) que diariamente falam por meio de seus Alexandres Garcias, Raqueis Sheherazades e Marcelos Rezendes, nos dizendo o que fazer, como nos posicionar e que somos nós professores que estamos tirando o direito da criança a educação. Como se já não bastasse apanhar da polícia porque direitos estão nos sendo retirados, ainda somos culpados por toda a condição constrangedora de trabalho que vivenciamos.

A educação nos é retirada quando nossas salas de aula não comportam nem 30 crianças, e abarrotam 40 lá dentro, e adoecem os professores, ou não concedem material e condições saudáveis de estudo, ou mesmo um salário a altura do que o servidor público recebe em outros órgãos, para tanto trabalho que nos é demandado. Saturam nossa estima, nossas capacidades, nossa saúde, nossos bolsos e empurram leis e opiniões para nos silenciar. Alteram o nosso sentido de escola e escola como nosso trabalho. Permanecer atuando profissionalmente em condições assim requer de nós militância e resistência. E por isso protestamos, nos posicionamos e usamos da greve!

Em tempos de apanhar da polícia a serviço do estado, receber cortes nos seus salários e retirada de direitos como vale alimentação e aposentadoria, rebelar-se torna-se mais que justo, torna-se necessário. É tempo de ir às ruas defendendo uma luta que pertence a todos nós. E quer um espaço mais pedagógico e constitutivo da classe trabalhadora do que a greve? A cidade é uma escola, e as ruas tornam-se claramente espaços formativos de diversos sentidos, competências e saberes político-pedagógicos.

Que seja um feliz dia dos professores, e uma bonita homenagem. Que seja mesmo um Feliz Dia de Luta da classe trabalhadora. Educação não é mercadoria, nós sabemos disso. E precisamos ensinar aos nossos alunos também. Vem pra rua, que a luta é nossa, é pedagógica e nos constitui.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Erasmo Baltazar Valadão disse:

    Muito bom, pensar a educação como alternativa para se construir uma nação inclusiva, ética, democrática e emancipadora constitui nossa utopia. Seu texto nos inspira nesta direção. Erasmo

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