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Enquete de Estudo 1º/2022 – GEPFAPe

Para nosso próximo semestre, temos a indicação de três livros:

Obra de maior envergadura do filósofo húngaro István Mészáros, Para além do capital, fruto de duas décadas de trabalho intenso, é uma das mais aguçadas reflexões críticas sobre o capital em suas formas, engrenagens e mecanismos de funcionamento. Influenciada por Marx, Lukács e Rosa Luxemburgo, a obra de Mészáros é o desenho crítico e analítico mais ousado contra o capital e suas formas de controle social. Enquanto elaborava sua última obra, Ontologia do ser social, Lukács disse que gostaria de retomar o projeto de Marx e escrever O Capital de nossos dias, promovendo uma atualização da obra de Marx. Coube a Mészáros contribuir para a realização de parte dessa empreitada. Em Para além do capital, Mészáros empreende uma demolidora crítica do capital e realiza uma das mais instigantes e densas reflexões sobre a sociabilidade contemporânea e a lógica que a preside. Para ele, capital e capitalismo são fenômenos distintos e a identificação conceitual entre ambos fez com que todas as experiências revolucionárias vivenciadas neste século, desde a Revolução Russa até as tentativas mais recentes de constituição societal socialista, se mostrassem incapacitadas para superar o sistema de metabolismo social do capital. O capitalismo seria uma das formas possíveis da realização do capital, uma de suas variantes históricas. Mészáros define o sistema de metabolismo social do capital como poderoso e abrangente, tendo seu núcleo formado pelo tripé capital, trabalho e estado – três dimensões fundamentais do sistema materialmente construídas e inter-relacionadas -, sendo impossível superar o capital sem a eliminação do conjunto dos elementos que compreende este sistema. Não tendo limites para expansão, o sistema de metabolismo social do capital mostra-se incontrolável. Fracassaram tanto as tentativas efetivadas pela socialdemocracia quanto a alternativa de tipo soviético. O sistema do capital seria assim essencialmente destrutivo em sua lógica, constatação que levou Mészáros a desenvolver a tese da taxa de utilização decrescente do valor de uso das coisas. Expansionista, destrutivo e incontrolável, o capital assume cada vez mais a forma de uma crise endêmica e permanente, com a perspectiva de uma crise estrutural cada vez mais profunda. Com a irresolubilidade da sua crise estrutural fazendo emergir, na sua linha de tendência já visível, o espectro da destruição global da humanidade, a única forma de evitá-la seria através da atualização histórica da alternativa societal, da ofensiva socialista. O livro apresenta ainda um conjunto de teses centrais, que incluem a questão feminina (efetiva emancipação da mulher nas diversas formas de opressão) e também a temática ambiental. Mészáros realiza uma síntese inspirada em Marx, mas que é também tributária da matriz ontológica de Lukács e, por outro lado, da radicalidade da crítica da economia de Rosa Luxemburgo, que o inspira da mesma forma.

A Miséria Da Teoria Ou Um Planetário De Erros, de E. P. Thompson, é um dos livros mais apreciados do historiador marxista inglês. Nele, Thompson critica o estruturalismo marxista de Althusser. Thompson revisa o materialismo histórico a partir de nova categoria tal como experiência de classe, quebrando os moldes que viam o materialismo apenas como modo de produção. A Miséria Da Teoria Ou Um Planetário De Erros é um livro que deve ser lido por todo historiador no mais profundo significado do termo. É exposto conceitos e categorias da ciência históricas e como ela é produzida no trabalho do historiador, que é realizada completamente diferente da filosofia, que é o ponto central da obra na critica à Althusser. Na crítica que faz a Althusser é demonstrado como o estruturalismo proposto por este filosofo é construído a partir de uma ordem rígida e fechada, ou seja, a teoria já estabelecer os resultados do processor de pesquisa e de produção do conhecimento científico. Nesta crítica é expandida também ao marxismo, por em suas analises e produção do conhecimento que é feito tendo o aspecto econômico como sendo o objeto único que estabelece a condição de analise. Neste ponto Thompson defende o trabalho do historiador que é feita a partir da experiência, da necessidade, que são aspectos não somente feitos a partir da face econômica. Nós seres humanos não somos somente analisados pela faceta do lado econômico, mas temos uma variedades de subjetividades, que são características do humano. Vem crescendo, há várias décadas, a confiança que a concepção materialista da História – o primeiro filho intelectual de Marx e Engels – tem em si mesma. Como uma prática madura (“materialismo histórico”) ela é talvez a mais forte disciplina derivada da tradição marxista. Mesmo durante minha própria vida como historiador – e no trabalho de meus próprios compatriotas – os avanços foram consideráveis, e constituem supostamente avanços no conhecimento. Isto não equivale a dizer que esse conhecimento seja finito, ou sujeito a alguma “prova” do cientismo positivista. Nem pretende supor que o avanço tenha sido unilinear e sem problemas.

O privilégio da servidão, do sociólogo e professor Ricardo Antunes, apresenta um retrato detalhado e atualizado da classe trabalhadora hoje, com as principais tendências das novas relações trabalhistas, em que precarizações, terceirizações e desregulamentações tornaram-se parte da regra, e não da exceção. O estudo apresenta uma análise minuciosa das mudanças nas relações de trabalho durante a história recente do país, desde a redemocratização até os primeiros meses de Jair Bolsonaro no poder – passando pelo impeachment de Dilma Rousseff e pelo governo de Michel Temer. O eixo central da obra busca compreender a explosão do novo proletariado de serviços, que se desenvolve com o trabalho digital, online e intermitente. A nova edição do livro conta com um tópico inédito, que procura indicar algumas causas e elaborar significados para a vitória da extrema direita nas eleições de outubro de 2018. Antunes mostra como esse episódio viria a revelar “a nada esdrúxula combinação entre autocracia tutelada e neoliberalismo exacerbado” do governo Bolsonaro: “Trata-se da sujeição completa aos imperativos mais virulentos e destrutivos do capital e, por consequência, da devastação integral das forças sociais do trabalho”.

Enquete – https://forms.gle/smdvprPqZ6fPhuHc7

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